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Doenças genéticas raras: ainda há esperança PDF Imprimir

Autor: Carlos Ruchaud (Diretor-médico da Genzyme do Brasil, em São Paulo)

Veiculação: Revista Médico Movimento Ano I - Nº 1 - Maio/Junho/Julho 2004


Um certo grupo de doenças genéticas vem atraindo, ultimamente, maior atenção da comunidade médica. São as Doenças de Depósito Lisossômico (DDL), raras, mas de grande impacto na vida dos pacientes afetados e de seus familiares. É que, antes consideradas incuráveis, várias dessas doenças começam a ter novas esperanças de tratamento.

As células do organismo estão constantemente em processo de renovação. Diariamente, milhares de células morrem e são prontamente substituídas pelas outras novas. O material (gorduras, açúcares, proteínas) que constitui as células mortas é reciclado, sendo “digerido” pelas substâncias chamadas enzimas, no interior de outras células.
Se faltar alguma dessas enzimas, certas gorduras ou açúcares deixam de ser digeridos e vão se acumulando progressivamente no organismo, causando problemas em vários órgãos. Essas doenças, as DDLs, ocorrem quando o paciente herda de seus pais genes alterados (mutações) que fazem com que a enzima produzida não funcione direito.

Dezenas de DDLs já foram identificadas, cada uma afetando diferentes órgãos, e várias delas levam o nome de seus descobridores. Embora raras (estima-se haver apenas poucas centenas de pacientes de cada uma delas no Brasil), as DDLs vão comprometendo a saúde dos pacientes progressivamente e, até cerca de 10 anos atrás, não tinham nenhuma esperança de cura, podendo levar à invalidez ou até à morte.

Recentemente, o progresso da ciência começou a dar novas esperanças aos indivíduos afetados por essas doenças, através de um novo tratamento chamado Terapia de Reposição Enzimática. Trata-se da produção, através de processos de alta tecnologia de engenharia genética, da enzima que falta e que pode ser administrada ao indivíduo afetado pelas infusões (injeções na veia) periódicas, levando à melhora de muitos sintomas, podendo fazer com que a maioria dos pacientes possa voltar a ter uma vida próxima do normal.

A terapia de reposição enzimática já é uma realidade para a Doença de Gaucher há cerca de 10 anos e o sucesso no tratamento dessa doença levou ao desenvolvimento da mesma terapia para outras DDLs. O tratamento para outras duas, a Doença de Fabry e a Mucopolissacaridose do tipo I (MPS I), já foi aprovado este ano nos Estados Unidos e na Europa, e foi tema discutido, recentemente, pelos especialistas de todo o Brasil no Simpósio Centro-Oeste sobre Avanços em Genética, realizado no dia 26 de setembro de 2003, em Brasília. Além disso, a pesquisa continua, podendo vir a tornar disponível, nos próximos anos, o tratamento de outras DDLs, como as doenças de Niemann-Pick e de Pompe.

Nesse simpósio, três doenças foram o foco dos debates: Gaucher, Fabry e MPS I.
A Doença de Gaucher é causada pela deficiência da enzima beta-glicosidase e caracteriza-se pelo acúmulo de um certo tipo de gordura no organismo, principalmente no fígado, no baço e nos ossos. O fígado e o baço do paciente aumentam muito de tamanho com o abdome podendo ficar enorme. Além disso, desenvolve anemia, com muita palidez e cansaço, e também passa a sangrar com facilidade. Vários pacientes também sofrem com dores nos ossos, que podem chegar a quebrar com o mínimo esforço.

Se não tratada, a doença de Gaucher costuma piorar ao longo da vida e, nos casos mais graves, pode levar à invalidez e até mesmo à morte. No Brasil, mais de 300 pacientes beneficiam-se atualmente da terapia de reposição enzimática para esta doença.
Na Doença de Fabry , a deficiência de outra enzima, a alfa-galactosidase, leva ao acúmulo de outro tipo de gordura nos vasos sangüíneos, o que pode levar o paciente à insuficiência renal, ao infarto do coração ou ao derrame precoce, em torno dos 30 a 40 anos de idade.
No início, os sintomas costumam passar despercebidos: na adolescência, vários pacientes sentem dores inexplicáveis nas extremidades ou podem apresentar pequenas lesões avermelhadas na pele (angioqueratomas).

Porém, esses sintomas também podem aparecer em outras doenças, mais comuns, e o diagnóstico muitas vezes não é suspeitado.

A MPS I, a terceira DDL para a qual já existe tratamento, começa a afetar os pacientes desde a infância, alterando progressivamente as feições da criança, limitando os movimentos das articulações e reduzindo a visão e a audição, entre outros sintomas. Os pacientes com MPS I sofrem com problemas respiratórios freqüentes e costumam ter distúrbios do sono.

Quando suspeitado pelo médico, a confirmação do diagnóstico dessas doenças é feita através de um exame de sangue, onde se pesquisa o funcionamento dessas enzimas, realizado apenas em alguns poucos centros especializados. Com o advento do tratamento específico, os médicos estão cada vez mais atentos a essas doenças, renovando as esperanças dos portadores das mesmas e de seus familiares.

 
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